Você também deve conhecer uma mulher que já abortou

por Juliana Gonçalves e Helena Borges, The Intercept Brasil
Até completar 40 anos, uma em cada 5 brasileiras já terá feito pelo menos um aborto durante a vida. Somente em 2015, aproximadamente 416 mil recorreram a um dos procedimentos de interrupção da gravidez. Boa parte são de classe média, já tiveram filhos e, muitas vezes, pertencem a famílias religiosas.
A Pesquisa Nacional de Aborto 2016 (PNA) demonstra que o aborto é “um fenômeno frequente e persistente entre as mulheres de todas as classes sociais, grupos raciais, níveis educacionais e religiões”. Apesar de ser uma prática comum, o aborto é crime no Brasil. A mulher que aborta pode cumprir uma pena de até três anos de prisão, e o médico que realizar o procedimento, até quatro anos – as exceções são para casos de estupro, risco de morte da mulher ou feto anencéfalo.

“A mulher que faz aborto no Brasil é uma mulher comum. É jovem, tem um companheiro e já tem filhos. Ao pensarmos nessa mulher comum, talvez os nossos afetos acalmem esse fanatismo que denuncia a mulher por crime e permitam cuidarmos dessas mulheres”, defendeu Debora Diniz, coordenadora da PNA, em entrevista ao The Intercept Brasil em dezembro.

Nesta segunda-feira, dia 6, chegou ao Supremo Tribunal Federal a primeira ação que pode descriminalizar o aborto para qualquer gestação de até 12 semanas. Segundo a OMS, 47 mil mulheres morrem por ano em decorrência de abortos clandestinos. No Brasil, abortos inseguros são a quarta causa de morte materna, principalmente entre mulheres mais pobres.

Mesmo criminalizado, o aborto está presente em todas as camadas da sociedade e atinge até mesmo setores que tradicionalmente são contra, como o religioso. De acordo com a PNA 2016, 56% das mulheres entre 18 e 39 anos que abortaram são católicas e 25% são evangélicas.

De acordo com o Ministério da Saúde, quanto maior a renda e a escolaridade da mulher, maiores são as chances da primeira gestação resultar em aborto. De acordo com o levantamento nacional, 45% possuem ensino médio completo e 23% nível superior. E, dessas  78% tiveram filhos.

The Intercept Brasil conversou com quatro mulheres que decidiram abortar para entender melhor suas razões e o quão próximas elas estão. Levando em consideração as estatísticas, é muito provável que, mesmo sem saber, todo mundo conheça alguma mulher que já abortou.

“Não me senti bem com o que tinha feito, sou uma super mãe”

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“Já tinha dois filhos, na situação em que eu me encontrava estava fora de cogitação um terceiro. Minha vizinha conhecia uma clínica em Madureira. Com muita dor no coração, mas decidida, liguei para a clínica e marquei. Fui na data marcada, apavorada. São muitos sentimentos que tomam conta da gente. O pai do bebê que me levou. Só contei para as minhas irmãs e, mesmo assim, poucos dias antes de fazer o procedimento.

Tudo feito, vim pra casa, comprei os remédios indicados, fiquei em repouso. Fiquei sozinha cuidando de mim e dos meus filhos, que eram pequenos. O parceiro nem os remédios comprou. Não me senti bem com o que tinha feito, sou uma super mãe. A decisão foi muito difícil, mas na época não vi outro jeito.”

“Ele era muito surtado, não tinha compatibilidade para ter um filho”

“Era um relacionamento completamente abusivo. Ele trabalhava embarcado, me acusava de traição, de dar mole para todo mundo. Era muita pressão psicológica na minha cabeça. Eu comecei a ficar neurótica.

Quando a gente já tinha terminado, aconteceu essa gravidez. Eu estava passando muito mal e ele me levou ao hospital. Ele queria ter esse filho, chegou a colocar nome e ficava na minha barriga, mas eu tinha a plena certeza que não tinha condições psicológicas pra ter essa criança.

Nós brigávamos todos os dias por qualquer coisa. Tudo era muito bobo e virava uma coisa bizarra. Eu falei: não tem como. Não queria ter esse filho, eu teria um vínculo eterno com ele.

Aí ele arranjou o lugar e pagou, uns 4 mil reais. Foi em uma clínica em Botafogo indicada por amigos dele. Depois de dois anos, o médico acabou sendo preso.

Ele me levou, mas eu entrei sozinha. Ele ficou na portaria. Me largou em Botafogo sozinha e foi contar para a minha mãe que eu tinha abortado. Pelo método feito, eu não precisaria fazer nenhum outro procedimento. Ela esperou três dias e me expulsou de casa.

Ele era muito surtado, não tinha compatibilidade para ter um filho.”

“A criminalização é que te faz passar por um desespero desnecessário”.

“O que me motivou foi que estava no último ano da faculdade e não tinha dinheiro para ter um filho no momento, também o fato de o menino não ser meu namorado, apenas dormimos juntos três vezes, e também porque eu não queria ser mãe. Não foi uma decisão conjunta, eu decidi e comuniquei a ele. Então ele contou aos pais.

A mãe dele queria que eu tivesse, mesmo sem me conhecer. Apesar disso, ela entendeu e ajudou. Todas as clínicas do Rio haviam fechado.

Eu ia fazer em um quintal em Campo Grande que a empregada de um amigo indicou (uma van levava todas as mulheres, eu não sei o método de lá). Eis que a mãe do menino arrumou um médico.

Fiz em um consultório em Copacabana, com anestesista, o método foi a aspiração. Custou R$6 mil. Eu e ele dividimos o valor, ele tinha muita grana. Um dos motivos também de eu não manter é que ia parecer golpe, o que estava longe disso. Ele quis pagar tudo, mas a minha vaidade não deixou. Peguei emprestado uma parte com a minha irmã e dividimos.

Estava em 8 semanas, eu só faria até a 12ª. Se passasse, acho que não faria. Deu tudo certo, me recuperei em dois dias, não tive nenhuma complicação. Depois fiquei sem ir a ginecologista, voltei só mais de um ano depois e vou fazer exames agora.

Se eu faria um aborto de novo? Sim. O procedimento é tranquilo, rápido e seguro. Se eu não tivesse dinheiro para pagar o método da aspiração, eu daria um jeito de arrumar de qualquer forma.

A criminalização é que te faz passar por um desespero desnecessário. E também as pessoas que dizem “ah, eu vou te ajudar a criar” e fazem você se sentir um monstro.”

“O processo, em si foi, rápido, mas ainda estou me recuperando, pelo menos, emocionalmente”

“Demorei um pouco para falar com meu parceiro. Apesar de ser uma pessoa legal, que sempre teve um papo aberto e cabeça comigo, eu não sentia confiança para contar. Resolvi falar porque não tinha como resolver sozinha.

Ele não concorda com o aborto, mas expliquei que eu não tinha emocional para levar outra gravidez solteira. O pai da minha filha não me ajuda, nem reconhece a paternidade. Não queria ter que passar por isso novamente. Eu não estou trabalhando, meu pai que arca com todas as despesas da minha filha.

Então ele disse que aceitaria minha decisão e me apoiou. Ele prontamente me deu dinheiro para comprar o remédio, só que não tinha o valor total. Eu não estava trabalhando e não teria como pagar também.

Então pedi ajuda em um grupo de feministas onde me deram total apoio. Foi reconfortante. Eu estava com tanto medo, tão insegura, quase pirando… Muitas mulheres que já passaram pela experiência rapidamente vieram conversar comigo. Com algumas conversei por dias e tirei o máximo de dúvidas que tinha sobre como foi com elas e o que sentiram. Troquei muitas experiências e me senti mais segura e confiante da minha decisão.

Na hora de tomar o remédio, preferi ficar sozinha. Não contei para ninguém da minha família, principalmente para a minha mãe, que é muito evangélica. O processo em si foi rápido, mas ainda estou me recuperando, pelo menos, emocionalmente.”

Os nomes das entrevistadas foram modificados para que suas identidades fossem preservadas.

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