Velho, carta fora do baralho, Maluf é preso. Já Aécio e Temer agem à luz do dia

Conheço muita gente que passou anos esperando o dia da prisão de Maluf para comemorar. Mas ouvi de um deles hoje que não ficou feliz. “Maluf é carta fora do baralho”, disse. “E tem algo muito errado quando o MBL comemora a prisão de alguém. Acho que querem mudar o foco”, acrescentou.

Maluf tem 86 anos de idade e haveria outras formas de punição que não o xadrez. Mas, ainda que seja preso, qual o sentido do cárcere? A reeducação não pode ser — ele é velho demais para isso. Talvez a retribuição pelo que fez.

Mas creio que o sentido é outro. Uma demonstração caricata de que as instituições funcionam. Parece mais a carcaça que o STF atira aos leões depois que deixou escapar dois filés, Temer e Aécio Neves.

No caso de Temer, o STF não tinha muito o que fazer, já que constitucionalmente cabe à Câmara dos Deputados a última palavra sobre denúncia contra o presidente.

Mas e Aécio?

Foi o próprio Supremo que decidiu — contrariando o voto de Edson Fachin, diga-se — que ele deveria retomar a vaga no Senado, sem ser submetido a nenhum controle, nem recolhimento noturno, mesmo depois de ser flagrado em conversa gravada na qual pedia dinheiro a um notório corruptor.

Manter Aécio no Senado, com poder, equivale a deixar solto, sem nenhum controle, estuprador ou pedófilo. Vai voltar a delinquir.

É nesse cenário que o quase nonagenário Maluf é preso. Fez-se justiça. Mas que justiça? Maluf deveria ser contido lá atrás, no fim dos anos 70, quando deu mostras de que comprou apoio para se eleger governador pelo voto indireto.

Ou início dos anos 80, quando deixou rastro de corrupção na campanha para presidência da República pelo voto indireto.

Ou nos anos 90, quando mantinha uma estrutura organizada para recolher doações ilegais para suas campanhas, sob a direção do maestro João Carlos Martins, o da Pau Brasil.

Também nos anos 90, quando prefeito, Maluf superfaturou obras, lavou dinheiro, comprou vereadores, deixou a corrupção correr solta na cidade, manteve a engenharia da emissão fraudulenta de títulos dos precatórios.

Enfim, Maluf pintou a bordou — malufar se tornou verbo, incorporado ao vocabulário nacional como sinônimo de desonestidade –, assim como Temer e Aécio agora. Mas prendê-lo aos 86 anos enquanto os dois governam o Brasil sob evidências gritantes de corrupção parece piada.

E o pior: Temer e Aécio estão na linha de frente de um agressivo projeto de reforma da Constituição e da venda de ativos do Estado, que pertencem ao povo.

Temer e Aécio agem à luz do dia, Aécio com o aval explícito do Supremo, enquanto Maluf vai ver o sol nascer quadrado. Tardiamente, como prêmio de consolação num país com sede de espetáculo punitivo, mas sem efeito prático no controle da corrupção, que vive dias de intensa atividade.

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