Ponto de vista: a Globo e sua escolha de Sofia

por Murilo César Ramos, GGN

Talvez a pergunta que mais intriga o mundo político brasileiro hoje é por que o Grupo Globo abandonou Michel Temer, levando com ele a coalizão de poder que a própria Globo ajudou a criar ao longo do processo do golpe judicial/parlamentar contra Dilma Rousseff. De fato, trata-se de uma pergunta vital ao entendimento do atual momento da grave crise política, econômica e social por que o país passa hoje, cujos primórdios remontam às manifestações de junho de 2013, e que foi potencializada para além de qualquer controle institucional pela Operação Lava Jato e seus desdobramentos que parecem beirar o infinito.

Mais ainda, a intrigante pergunta, de resposta quase impossível, mas que merece ser tentada, pode ter imbricado tanto os destinos daquela organização de comunicação e de Michel Temer e seu governo que apenas um desses dois conjuntos de personagens centrais da atual cena política brasileira poderá sobreviver: Temer, com a perda da presidência da República; a Globo, com graves prejuízos à sua credibilidade jornalística e possíveis perdas financeiras.

Essa história tem seu início no final da tarde do dia 17 de maio, quando o jornalista Lauro Jardim, principal colunista político de O Globo, tornou pública a delação premiada de Joesley Batista, obtida pela Procuradoria Geral da República e homologada pelo ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no SFT. Jornalisticamente o que se seguiu já está na história da imprensa brasileira e será ainda objeto de muitos estudos e análises, seja pela academia, seja pelo mundo jornalístico: William Bonner, Renata Vasconcelos, Merval Pereira, Renata LoPrete, Cristiana Lobo, Eliane Cantanhede, Gerson Camarotti, Andréia Sadi – só para ficar nesses profissionais do jornalismo televisivo da Globo -, tiveram que ocupar o vídeo atônitos, titubeantes – Bonner chegou a chamar Michel Temer de ex-presidente -, visivelmente desinformados, tentando dar conta de uma história que era de conhecimento há muitos dias de um profissional da empresa em que todos trabalhavam.

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É provável que Lauro Jardim não tenha sido o único jornalista a ter conhecimento prévio da delação; é provável que ele, ao aprofundar a investigação sobre o assunto, tenha se valido de mais e melhores fontes no judiciário e no ministério público – mérito dele; é provável que ele tenha adiantado o que tinha para, pelo menos, duas pessoas da empresa para a qual trabalha; é provável que Jardim, por estar na frente de outros, ou outras jornalistas, tenha obtido das suas fontes o compromisso de ser o único a receber cópias das gravações de Batista e de Ricardo Saud comprometendo de uma forma aparentemente inquestionável Michel Temer, Aécio Neves e Rodrigo Rocha Loures; é provável que ele tenha obtido das suas fontes, além do material da delação, a garantia de ser avisado do momento certo para publicá-lo; é provável que a decisão de publicar tenha tido a participação, além das duas pessoas com quem Jardim já conversara em sua empresa, pelo menos mais uma. Tudo isso é provável e, dado o contexto do fazer jornalístico, pode ter acontecido muito provavelmente assim.

Ou, alterando um pouco o cenário, pode ter sido também que Jardim tenha sido a segunda, ou mesmo a terceira pessoa da Globo a saber o que estava prestes a acontecer, recebendo a missão de, com todo o sigilo possível, acompanhar o assunto, até receber o sinal verde de publicá-lo. Afinal, se alguma autoridade pública neste país quiser que alguma coisa repercuta com muito impacto na sociedade, ela sabe que seu caminho será sempre a Globo. E terá sido essa autoridade quem levou o assunto àquela pessoa da Globo que precisaria ser a primeira a saber. A mesma pessoa a quem caberia a responsabilidade última de dizer a Jardim: publique tudo e surpreenda até mesmo seus próprios colegas.

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Mas, nada disso responde à pergunta inicial: por que a Globo decidiu abandonar, ou, dito de outra forma, decidiu derrubar Michel Temer.

Em verdade, e aqui vai a resposta prometida acima, a Globo poderia até ter preferido não ter sido a destinatária do furo – fosse pela competência do seu colunista, fosse pela preferência a ela dada pela autoridade que queria vazar a informação -, mas uma vez que o furo chegou até ela, e chegou embasado por evidências já validadas pelo MPL e pelo STF, não seria jamais possível deixar de publicá-lo. Porque se não o fizesse, a autoridade interessada o levaria até outro destinatário, e, aí, os prejuízos seriam possivelmente maiores. O maior deles: tornar-se, mesmo sem querer, fiadora de um governo condenado à desgraça, ou, pior, tornar-se caudatária do furo jornalístico dado por algum dos seus concorrentes.

Diante dessa escolha de Sofia, a Globo jogou Michel Temer às feras da Lava Jato e, ao fazer isso, tornou-se refém da sua própria decisão jornalística: Temer tem que cair.

Murilo César Ramos – Pesquisador do Laboratório de Políticas de Comunicação (LaPCom), Universidade de Brasília

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