Páscoa do silêncio e do fosso

por Ricardo Cappelli, Brasil 247

Um padre é hostilizado e chamado de filho da puta no meio da missa por dois homens no Rio. Cometeu o “desatino” de dizer que Marielle, assim como Jesus, foi assassinada precocemente, mas que a luta dos que tentam melhorar a sociedade continua e dá frutos.

Uma desembargadora calunia a memória da vítima e defende a execução “num paredão profilático” de um deputado federal.

Lembrando cenas deploráveis do passado, um homem chicoteia o outro em praça pública.

A caravana de um ex-presidente é recebida por extremistas com pedradas, ovos e tiros.

Na Primeira Grande Guerra, quando a “humanidade enlouqueceu”, morreram 9 milhões de soldados e mais de 5 milhões de civis. No dia 24 de dezembro de 1914, primeiro natal desde o início do combate, em algumas zonas de guerra os soldados, espontaneamente, suspenderam os tiros.

Segundo o historiador inglês Martin Gilbert, ingleses e alemães, em alguns pontos, aproximaram-se na noite natalina, trocaram lembranças e até pudim. No dia seguinte voltaram a trocar tiros. A humanidade permanecia dentro deles.

O que leva uma pessoa a comemorar uma execução? Aonde chegamos para que solidariedade e compaixão virassem um palavrão para setores da sociedade? Por que tanto ódio?
Estamos doentes, trocando argumentos por tiros.

Bolsonaro está calado à espreita. Seu silêncio medido e a relativização dos absurdos por grande parte da mídia é um sinal para que o fascismo avance. O fascista está calculando os próximos movimentos. A liderança nas pesquisas com a ausência de Lula recomenda cautela ao capitão.

Se as investigações sobre o assassinato da vereadora carioca chegarem aos culpados, e se não forem policiais, emergirá defendendo a execução dos bandidos. Não duvidem, parte expressiva da sociedade aplaudirá.

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A brutal execução aprofundou o fosso e aumentou o diálogo de surdos. Os blocos sociais estão fechados em bolhas. Exclusões e bloqueios dos diferentes nas redes sociais alcançaram seu auge. Estamos num perigoso momento de ódio e cegueira.

Momentos de barbárie e insanidade coletiva costumam produzir desgraças ainda piores. Quando o fosso se abre são as saídas extremadas e irracionais que ganham força.

Hitler era um radical patético desprezado na Alemanha. Caricato, não representava nada e tinha uma expressão eleitoral insignificante. Quanto mais a Alemanha afundava, mais ele crescia. O nazista de bigodinho “jamais chegaria ao poder.”

O ianque topetudo que manipulou espantosos 50 milhões de perfis no facebook para espalhar ódio e medo, também não.

Setores da esquerda deslocam o debate público da agenda econômica para agenda comportamental. O fascista termina seu comício no aeroporto de Curitiba enviando “um beijo para as mulheres e um abraço hétero para os homens.” É ovacionado.

O fundo do poço parece não ter fim. O ovo desta Páscoa, infelizmente, é o da Serpente.

A construção de uma Frente Ampla Antifascista em torno da nação e dos valores democráticos é um imperativo histórico. Precisamos unir forças para jogar luz na escuridão, antes que seja tarde.

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