Para o incomodado Doria, a Amazon é “oportunista”. Pedir doações não é?

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por Mauro Donato, DCM

A Amazon alfinetou o prefeito João Doria. Fez uma campanha com projeções sobre muros que foram pintados de cinza, apagando os grafites que ali havia.

No vídeo sobre a ação, uma propaganda do e-reader Kindle, a varejista americana cutuca: “Cobriram a cidade de cinza?”, para em seguida responder: “A gente cobriu o cinza de histórias”. Eram trechos de livros projetados em locais como as avenidas Nove de Julho e 23 de Maio.

Doria, que ontem afirmou que não comentaria, hoje divulgou um vídeo-resposta.

“Já que a Amazon gosta tanto de São Paulo, do Brasil, ajude nossa cidade, ajude a quem precisa. Se vocês gostam realmente, doem livros para as bibliotecas, doem computadores para as escolas públicas e municipais”.

O prefeito ainda postou que considerava a Amazon ‘oportunista’ e que ‘existem várias formas de a Amazon ter uma postura cidadã’.

Para ele, críticas devem ser substituídas por ações positivas. Concordo. João Doria gosta muito da cidade de Campos do Jordão. Tem lá sua casa de veraneio. Gosta tanto, mas tanto que não só não doou um pedaço de terra como fez exatamente o contrário: apossou-se de um pedaço de chão que era público.

Seus pedidos de doações à iniciativa privada já se transformaram nisso mesmo que Doria acabou de encenar na resposta à Amazon. Algo que já resvala no auge do ‘sem-noção’. Para toda crítica que receber, Doria irá fazer uma solicitação de caridade?

Será que a Ultrafarma esteve em desavença com o prefeito para presenteá-lo com placas de propaganda num jogo de futebol?

Doria implantou uma guerra contra um segmento que já começava a caracterizar São Paulo. Os grafites e grafiteiros daqui são conhecidos mundialmente. Mas o prefeito não aceita que o critiquem por sua inciativa tão progressista à la Kassab.

Toda a classe artística vem sendo atingida por sua gestão. Doria congelou quase metade do orçamento destinado à Cultura. Dos R$ 453,3 milhões previstos, R$ 197,4 milhões estão congelados.

Ele chama o procedimento de ‘contingenciamento’ e afirma que, se possível, os recursos serão liberados a conta-gotas. Para adotar a medida, Doria culpa o caixa deixado por Fernando Haddad. Revoltados, artistas fizeram um grande protesto na tarde de ontem, em frente do Teatro Municipal. Querem o fim do descongelamento e aplicação integral dos recursos.

Não priorizar a Cultura – ou tratá-la como um produto – dá a dimensão da gestão Doria. De quebra, deixa os artistas em posição constrangedora, mendigando o que lhes havia sido comprometido via edital. Ficam na posição de ‘vagabundos que só querem mamar no governo’ perante a opinião pública.

Doria, que busca impor uma gourmetização na cultura determinando o que é arte e o que não é – sendo casado com uma artista plástica que já utilizou recursos da Lei Rouanet para fazer exposição em Miami – impediu com um gradil e policiamento reforçado que os artistas se posicionassem na calçada e escadarias do Teatro.

“É uma perda pra todo mundo, não só para os artistas. A cultura somos nós, o povo, é a educação, as tradições do povo. Estamos aqui pela valorização da cultura nacional”, declarou ao DCM a atriz Leona Cavalli.

Mas o prefeito não quer saber de artista de rua, de povo. Quer grandes espetáculos que sejam comercializáveis e em espaços fechados. No resto da cidade, tudo deve ser cinza.

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