O que o Globo não deu, o mundo leu

Por Fernando Brito, Tijolaço

A Reuters publicou – e foi republicada em 9.800 jornais e sites do exterior, a começar pelo The New York Times – grande matéria sobre a acusação do ex-executivo Márcio Faria, da Odebrecht, de que Michel Temer presidiu pessoalmente a reunião onde foi selada uma propina de US% 40 milhões para os caciques do PMDB na Câmara.

Com acesso a outros trechos do depoimento do delator, a que não tive acesso, a agência demole os argumentos de Temer de que não se tratou de dinheiro na reunião:

Em seu depoimento, Faria alegou que, enquanto Temer não falava sobre números, Cunha deixou claro que era esperado um pagamento.

“Ele explicou que estávamos buscando um contrato com a Petrobras e que um compromisso que seria assinado exigiria uma contribuição muito importante para o partido”, disse Faria, acrescentando que estava claro que um suborno estava sendo buscado.

Uma vez que o contrato foi ganho, o pagamento foi feito em dinheiro no Brasil e em contas bancárias estrangeiras, disse Faria. Ele disse que o PMDB levou 4 por cento do valor do contrato, deixando 1 por cento para o Partido dos Trabalhadores, de esquerda, do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A agência confirma o que se imaginou aqui: que o PT foi incluído no negócio como um “cala-boca” que, se viu depois, seria útil para embaraçar a apuração do episódio, como admitiu, em seu depoimento, o empreiteiro Marcelo Odebrecht.

Este caso, por mais que se queira abafar, não vai parar.

Até o conservador Josias de Souza, em seu blog, rebarba as explicações de meia-pataca dadas pelo atual presidente:

Temer assegura que ninguém falou em dinheiro durante o encontro. Até aí, sua verdade coincide com a do delator. Na versão do dedo-duro, a cifra fora acertada previamente. A reunião com Temer serviria apenas para que ele abençoasse a transação diante da testemunha mais qualificada do PMDB.

Tampouco foram mencionados no encontro “negócios escusos da empresa com políticos”, sustenta Temer. Beleza. Mas o presidente faria um bem enorme a si mesmo se respondesse a três indagações: 1) Se não tratou de negócios, o que diabos foi fazer no seu escritório o executivo da Odebrecht? 2) Se não havia mutreta no lance, por que o visitante foi levado à sua presença por Eduardo Cunha? 3) Se não pode ser 100% transparente, por que divulgar um video com meias-verdades?

Embora não seja notícia digna nem de uma nota de primeira página em O Globo – tratamento discreto que lhe deu o Estadão – o presidente da República – ainda mais um ilegítimo – sacramentando pessoalmente uma “bribe” de US$ 40 milhões é notícia em qualquer jornal do mundo.

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Menos, claro, em O Globo.

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