O pato quem pagou foi a democracia

por Fernando Brito, Tijolaço

Excelente reportagem de Jamil Chade, no Estadão, com o reconhecimento de Dilma Rousseff de que “fez uma grande burrada”  ao reduzir impostos cobrados sobre grandes empresas, acreditando que isso iria trazer mais investimento e emprego.

“A ex-presidente Dilma Rousseff admitiu que cometeu um “grande erro”ao promover a desoneração fiscal. Em Genebra, na Suíça, para participar de debates e seminários, a brasileira foi questionada se era capaz de assumir seus erros e se estava arrependida de alguma decisão que tomou enquanto governou o Brasil. “Eu acreditava que, se eu diminuísse impostos,eu teria um aumento de investimentos”, disse a ex-mandatária.
“Eu diminuí e me arrependo disso. No lugar de investir, eles (os empresários) aumentaram a margem de lucro”,afirmou. 

O raciocínio é correto, mas incompleto.

O erro, na verdade, é achar que a redução de impostos é um ponto chave para o desenvolvimento de nosso país, pura e simplesmente.

Afinal, Lula também fez desonerações tributárias e  foi bem sucedido.

Os problemas da economia brasileira, claro, têm a ver com impostos, mas não necessariamente por sua redução, mas com o seu perfil de incidência e destino da receita que deles resulta.

Primeiro, porque têm a ver com a capacidade de financiar investimentos em infraestrutura e em indústria pesada, o que não será feito sem (muito) dinheiro financiado pelo Estado. Banco, no Brasil, não se interessa por negócio de longo prazo, de taxa de retorno baixa e longa maturação.

Segundo, porque o problema essencial de nossa indústria não é o tributo, mas a escala. E esta só se amplia na hora em que você desonera na ponta do consumo, apenas lá, e por prazo determinado, porque obriga ao aproveitamento da janela de oportunidade, o investimento e o crescimento da produção em ritmo  razoavelmente rápido e, portanto, capaz de compensar a redução da arrecadação.

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“Numa crise, todos precisam pagar. Mas quem paga? Um pato de seis metros de altura foi colocado nas manifestações, dizendo: eu não pago o pato. Mas quem colocou o pato? O presidente da Fiesp. O que quer dizer isso? Eu não pago impostos. Eu só quero cortes e mais cortes”, atacou Dilma. Na visão da ex-presidente, o impeachment que sofreu ainda estaria ligado a propostas que ela tinha de elevar impostos. “Meu impeachment também foi por não pagar o pato, e o pato eram os impostos”.

Uma constatação tardia, mas que ainda contamina boa parte do pensamento econômico progressista.

Há uma lenda, quase que unanimemente aceita, de que o Brasil não pode crescer com uma política de expansão de consumo e de ampliação de exportações pela via de um enfraquecimento do câmbio sem que isso gere uma alta taxa de inflação.

Pode e só pode assim, mas isso exige um Estado capaz de suprir a falta de investimento privado e, com isso, fazer girar a manivela da atividade econômica. Mas seletivamente.

O pato empresarial brasileiro só vai pagar menos  com escala produtiva.

O resto é só fazer o país retroceder.

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