O governo ‘feminista’ da Suécia está funcionando?

Suecas protestaram contra a diferença entre os salários pagos para homens e mulheres

Da BBC

Dezenas de mulheres de reuniram na praça central de Estocolmo, no dia 15 de fevereiro, para formarem o horário 16:00.

Representantes de grupos de defesa de direitos das mulheres, de partidos políticos e de sindicatos, elas queriam chamar atenção para a desigualdade entre os salários de homens e mulheres na Suécia.

Essa diferença significaria, por exemplo, que a última hora da jornada diária, entre 16h e 17h, seria cumprida por elas de graça – daí o horário formado no protesto.

“Para se ter igualdade de gênero, é preciso mudar o equilíbrio de poder, e isso leva tempo. Mas até eu estou impaciente”, disse a ministra da Igualdade, Asa Regner, durante o protesto.

Desde que a manifestação anual começou, em 2012, o ponteiro de seu relógio vem avançando com a redução do tempo de trabalho não pago às mulheres quando comparadas com os homens: naquele ano, elas trabalharam de graça a partir das 15h51.

A situação vem melhorando sob o “governo feminista”, instalado a partir do momento em que a coalizão de centro-esquerda formada entre o Partido Social Democrata Sueco e o Partido Verde assumiu o poder, em 2014.

Mas ainda há um longo caminho a percorrer, dizem os críticos.

Gestos ousados

O governo sueco foi parar nas manchetes ao redor do mundo quando deixou clara sua posição feminista, mas a questão é ainda mais ampla no país.

Hoje, só um partido sueco não inclui o feminismo em seu programa: o Democratas Suecos, de extrema-direita. Das quatro legendas de centro-direita, três são lideradas por mulheres.

Essa foto da ministra Isabella Lovin parecia ser uma reação ao gabinete predominantemente masculino de Trump

A ministra de Relações Exteriores do país, Margot Wallstrom, gerou uma crise diplomática em 2015 com países árabes com um discurso que faria no Egito sobre os direitos de mulheres, no qual descrevia a situação na Arábia Saudita como “medieval”.

No início deste mês, o país se juntou a Dinamarca, Finlândia, Bélgica, Holanda e Luxemburgo em uma campanha para levantar cerca de US$ 600 milhões (R$ 1,9 bilhão) para compensar os recursos perdidos nos EUA após o presidente Donald Trump vetar o financiamento de grupos de apoio ao aborto.

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A então vice-premiê e ministra do Clima, Isabella Lovin, viralizou na internet com uma foto em que aparecia cercada por mulheres que integram o governo, interpretada como uma reação à medida antiaborto de Trump e a presença maciça de homens em seu gabinete.

‘Incompatível’

Algumas notícias foram, no entanto, menos positivas ao governo.

Nesta semana, houve muitas críticas após, em uma visita para tratar de relações comerciais, integrantes da delegação sueca serem instruídas a cumprir a lei iraniana que determina que mulheres devem cobrir a cabeça.

No ano passado, um relatório de uma coalização de ONGs condenou a Suécia por continuar a exportar armas para países que violam direitos de mulheres.

Isso seria “totalmente incompatível” com sua política feminista, assim como a decisão do governo de dar fim ao direito de refugiados de se reunirem novamente com seus familiares, deixando para trás mulheres e meninas em países assolados pela guerra.

A ministra de Negócios liderou uma delegação em viagem ao Irã

Durante a maior parte do século passado, os social-democratas de centro-esquerda predominaram nos países nórdicos e promoveram progressos em direitos femininos. Mas não houve grandes mudanças nos últimos anos.

Os governos da Finlândia e da Noruega fazem parte de coalizões com partidos nacionalistas, enquanto o da Dinamarca depende do apoio da extrema-direita por ser minoria no Legislativo.

Esses governos são mais céticos quando aos ideias liberais e feministas e mais conservadores em temas como família. Feministas na Suécia acreditam, portanto, que Estocolmo tem responsabilidade maior em defeder os direitos das mulheres.

Desigualdade

Apesar da imagem da sociedade sueca perante ao mundo como igualitária, em que mulheres desfrutam de um status elevado, ainda há muita desigualdade.

O país é lider no mundo industrializado em termos de igualdade de gênero no setor público, segundo a Organização para Coorperação Econômica e Desenvolvimento (OCDE).

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No entanto, no setor privado, que se expandiu muito em anos recentes, homens ainda ocupam 80% dos cargos gerenciais e 94% dos postos de alto escalão.

Nos conselhos editoriais de jornais, por exemplo, há três homens para cada mulher, enquanto os homens são 70% dos entrevistados ouvidos pela mídia. Em 2014, 75% dos professores universitários eram homens.

E, nas ruas, muitos avaliam que os benefícios não são tão óbvios. “É bom para o governo dizer que é feminista”, diz Matilda Andersson, uma cabelereira de 24 anos de Gotemburgo.

“Mas não notei mudanças na minha vida. Na verdade, sinto-me menos segura nas ruas em comparação com há alguns anos.”

Ela destaca que trabalha em uma indústria predominantemente feminina, mas na qual os cabeleireiros “celebridades” são homens.

Foi parar nas manchetes do país a decisão de um hospital de uma pequena cidade no norte do país de fechar sua maternidade, fazendo com que mulheres tenham de dirigir 100 km para dar à luz.

“Mulheres estão sendo agora treinadas para parir em seus carros. Isso não aconteceria se homens dessem à luz”, diz Matilda.

Trabalho a ser feito

A Suécia é famosa por sua licença-maternidade generosa, que permite aos pais compartilharem quase 18 meses de folga, a maior parte desse período recebendo 80% do salário.

No entanto, as mulheres ainda usam 75% do tempo de licença-maternidade. E, entre as pessoas que precisam trabalhar por meio período para cuidar de uma criança ou um parente adulto, quase nove em cada dez são mulheres.

Tanto os sociais-democratas quanto os membros do Partido Verde dizem querer que o tempo da licença seja melhor dividido entre homens e mulheres e, recentemente, aumentaram de dois para três meses o período reservado exclusivamente para o pai.

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A lobista Clara Berglund acredita que o governo pode fazer mais pelas mulheres

“Isso é bom e terá um impacto”, diz Clara Berglun, líder da organização Lobby das Mulheres Suecas. “Mas, se o governo é feminista, por que não ter coragem de ir além?”

Berglund também está descontente com a desistência recente do governo de seus planos de introduzir cotas para mulheres em conselhos de empresas com ações negociadas na bolsa. E avalia que a gestão tem sido lenta no combate à propaganda sexista, apesar de isso ter sido uma promessa de campanha.

Ela compara a situação com o veto instituído no ano passado pelo prefeito de Londres, Sadiq Kahn, a anúncios no metrô que possam envergonhar mulheres por elas não terem “corpos perfeitos” como os da propaganda.

“A Suécia é o único país nórdico que não tem uma lei contra publicidade sexista”, diz ela. “Se isso pode ser feito em Londres, não há desculpa para que um governo feminista não tome uma medida quanto a isso.”

Suecas participaram da Marcha das Mulheres contra Donald Trump

Apesar destas críticas, Berglun acredita que, com a ascensão de movimentos conservadores em países ocidentais, a Suécia precisa continuar a se identificar como feminista – mesmo que seja difícil para o governo atender a expectativas tão altas.

“Fizeram mudanças importantes para promover a igualdade de gênero”, diz ela. “Mas nós de movimentos feministas temos grandes expectativas. Um governo feminista deveria ter a coragem de implementar reformas impopulares.”

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