O dom de Francisco

por Zygmunt Bauman, Unisinos –

Um grande dom, talvez o maior: é assim que o Papa Francisco é definido pelo estudioso e filósofo polonês falecido em janeiro deste ano, Zygmunt Bauman, em relação à Igreja Católica. Publicamos abaixo um pequeno artigo presente no livro Francesco e noi – coleção de textos sobre o papa escritos por personagens célebres em várias disciplinas culturais – de autoria de Bauman, no fim de sua vida, diante do início do papado de Bergoglio.

Outros nomes presentes no livro são: Eugenio Bernardini, Gaël Giraud, Gustavo Gutiérrez, Derrick de Kerckhove, Ghislain Lafont, Serge Latouche, David Le Breton, Pierre Lévy, Óscar Andrés Rodríguez Maradiaga, Michela Marzano, Riccardo Di Segni, Elisabetta Piqué, dentre outros.

O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 08-03-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O Papa Francisco é o dom mais precioso (ou, melhor, inestimável) que a Igreja Católica Romana nos ofereceu, além de ser o presente de que a sociedade mais precisava nestes tempos atormentados pela incerteza, sem direção, à deriva, sem um propósito e sem confiança.

Mais do que qualquer outra coisa, o mundo de hoje, caracterizado por desordens, catástrofes e crises, é um conjunto de problemas que requerem atenção e devem levar à ação. Entre os personagens em vista e dotados de autoridade em nível mundial, somente Jorge Mario Bergoglio compreendeu e definiu claramente as prioridades a serem enfrentadas:

– recordar a importância da arte do diálogo, que nunca aprendemos o suficiente e que, neste momento, parece esquecida: uma conversa que leva a considerar os pontos de vista, os valores e as prioridades diferentes das nossas; uma conversa que não visa a derrotar, humilhar ou ridicularizar um adversário, mas guiada pela empatia e voltada à compreensão recíproca, capaz de elaborar um modus convivendi e uma verdadeira solidariedade comum no trabalho conjunto para tornar o mundo mais hospitaleiro para a bondade, a justiça, a misericórdia e o amor;

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– lutar contra a desigualdade galopante e profunda, contra a pobreza e o sofrimento e a humilhação que provoca, junto com a rejeição ou a falta de respeito pela dignidade humana e, portanto, também contra as suas causas: avidez, cegueira moral, indiferença à dor dos outros seres humanos, acompanhada por autorreferencialidade de interesses, intenções e ações;

– inserir esses e outros problemas de gravidade semelhante nos currículos das escolas de todos os níveis, do mais baixo ao mais alto; Francisco confiou à educação a tarefa de fazer renascer os critérios morais perdidos e restaurar vitalidade aos valores espirituais para levá-los de volta à magnificência e à eminência corroídas por um materialismo sem limites, por um consumismos desenfreado e por uma busca de lucro continua e desonesta. Desse modo, ele nos convidou para nos prepararmos para uma luta longa e difícil; na educação, não há soluções rápidas, atalhos, resultados imediatos. Como nos adverte e nos ensina o antigo provérbio chinês: “Se os seus projetos forem para um ano, semeie grão; se os seus projetos forem para dez anos, plante árvores; se os seus projetos forem para cem anos, eduque as pessoas”.

O dom chamado Papa Francisco oferece ao mundo um propósito e, à nossa vida, o seu significado. Demonstraremos que somos capazes e estamos dispostos a aceitar essa proposta e a agir em consequência?

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