O avesso do avesso

por Fernando Brito, Tijolaço

Talvez haja muitos comentários ácidos pelo que vou escrever, mas resolvi soltar o que estava preso depois que me mandaram um vídeo onde uma das chiques lojas “Reserva”, da qual Luciano Huck é sócio, na Rua Maria Quitéria, esquina da Praça N.S. da Paz, um dos pontos mais chiques de Ipanema, exibia um “evento de marketing”.

Um display eletrônico convidava os distintos passantes a vestirem uma luva de boxe e tirarem uma foto, para a internet, socando um saco destes de treino de boxe,  onde está escrito “Fake News”, Assédio, Homofobia,Violência, Corrupção e Ódio.

Tudo “politicamente correto”.

Menos o evidente, o óbvio, o escancarado: o soco, a incitação à violência, ao ódio, à agressão, com o mais corrupto objetivo, o do ganho comercial ou, ao menos, o do mercadológico.

Um blackbloc cult, aqueleV de Vingança” do qual falei aqui outro dia com o risco de ser tachado de “conciliador” depois de 40 anos de entrega da vida à transformação do meu país.

E hipócrita, numa grife que, pouco tempo atrás, espalhava fotos de crianças com camisetas dizendo “vem ni mim que estou facim”.

Os manequins, claro, são convenientemente negros.

Faz tempo que o “politicamente correto” é manipulado pelo conservadorismo como forma de “vestir” a elite mais politicamente incorreta que o mundo já conheceu com a capa do “bom-mocismo”.

O monstruoso assassinato de Marielle Franco traz isso tudo mais à tona.

A Globo e os jornais se debulham em lágrimas de crocodilo pelas causas a que nunca deram espaços e  que só têm valor para a exploração mórbida.

Está evidente que Marielle morreu não somente  porque era mulher, negra, de esquerda  e oriunda da favela.

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Morreu porque isso a fazia o alvo mais que adequado para o que se queria alcançar com um assassinato de grande repercussão.

Se fosse homem, branco, de classe média, apolítico não morreria, talvez,  apenas  pela carga simbólica que lhe faltaria.

Mas morreria, se assim o determinasse o esquema mafioso que se constrói a partir de uma polícia que virou uma indústria de corrupção.

O essencial não pode ficar escondido e é, nas palavras de um amigo, o “acirramento da a luta de classes e a emersão do fascismo”.

Estamos na luta por um projeto que, embora carregue os ingredientes da cor, do sexo, da origem e da ideologia, tem algo que a tudo isso engloba e muito mais: queremos ser um povo e um país civilizados.

É isso o que matou Marielle  e que está matando a todos nós.

E se não soubermos o que nos tenta matar, não sobreviveremos.

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