Nosso correspondente no Espírito Santo explica o que está acontecendo lá

por Marcos Sacramento, DCM

Do Espírito Santo:

Engana-se quem pensa que o caos instalado no Espírito Santo após o aquartelamento da Polícia Militar é apenas um caso de falta de policiamento.

Junto com a onda de crimes e vandalismo subsequente ao protesto, iniciado na última sexta-feira (03) por cônjuges e familiares de policiais militares que “bloqueiam” os portões dos Batalhões, afloraram tensões sociais na forma de saques a lojas de eletrodomésticos e áudios de Whatsapp carregados de preconceito social.

Negar o crescimento da violência nesses dias seria insensatez da minha parte, ainda mais com estatísticas e imagens eloquentes.

De acordo com a DHPP (Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa), em menos de 24 horas foram registrados 19 homicídios na Grande Vitória. Os números do Sindipol (Sindicado dos Policiais Civis), são mais vultosos e informam que mais de 52 corpos deram entrada no Instituto Médico Legal.

Esses dados saíram na imprensa por volta de meio-dia. No final da tarde policiais civis fecharam o IML devido à lotação, provocada tanto pela estrutura precária quanto pela elevada quantidade de corpos que chegaram nas últimas horas.

Quanto às imagens, transmitidas às centenas pelo Whatsapp, formam um inventário de delitos urbanos: houve disputas entre gangues de traficantes, troca de tiros entre suspeito e guardas municipais, assaltos em vias públicas, tumulto em shopping, roubos de veículos, furtos em lojas.

Na quarta, dia 7, pouco depois da chegada das tropas do Exército às ruas da capital, houve o arrombamento de uma joalheria no bairro onde moro.

No vídeo compartilhado pelo Facebook dá para ver três ou quatro indivíduos quebrando a porta da loja e em seguida fugindo em um carro semelhante ao Honda Fit. Um caso típico de furto.

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Diferentemente do que aconteceu na interiorana Cachoeiro de Itapemirim, terra de Roberto Carlos e Rubem Braga. Lá, foram registrados saques a grandes lojas de varejo, com gente levando televisores de 50 polegadas nas costas ou equilibrados em motocicletas.

Dezenas de homens e mulheres de idades variadas se aproveitaram da ausência de policiais nas ruas para satisfazer seus desejos consumistas. Muitos ali provavelmente não têm passado criminoso, mas carecem de sentimento de cidadania e rezam a cartilha do cada um por si.

Essa mesma filosofia de vida impeliu motoristas de ônibus do sistema de transporte público a não parar para trabalhadores que tentavam ir em segurança para suas casas, embora fossem obrigados a prestar o serviço.

Além do individualismo, o clima de desordem evidenciou os preconceitos de classe, como mostra um áudio atribuído a um juiz. Ele alerta que “há muitas chances dos morros descerem para fazer balbúrdia, praticarem roubos”, como se morador de morro fosse sinônimo para bandido.

Ainda mais assustador é o sadismo dos linchamentos e de gente a aplaudir a execução de um suspeito de roubo em Cachoeiro de Itapemirim, bem como convocações pelo Whatsapp de interessados em formar grupos de vigilantes para manter a ordem.

Às vezes situações extremas levam a atos de grandeza e generosidade, como a tragédia com o time da Chapecoense. Não é o caso do Estado do Espírito Santo, que pressionado pela insegurança transformou-se em um repositório dos valores mais mesquinhos e reacionários.

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