Em defesa da arte urbana nos muros

por Fabio Gomes, Digestivo Cultural

Um dos assuntos mais comentados deste começo de ano é a investida do novo prefeito de São Paulo, João Dória, contra a arte nos muros da cidade. Dória está encarando qualquer dessas intervenções, seja grafitti, seja pichação, como um mal a ser extirpado. A única coisa boa que vejo em investidas claras assim é que elas indignam a sociedade e acabam por mobilizar uma reação contrária.

Infelizmente esta reação nunca, ou raramente, se verifica quando não há o correspondente alarde no apagar a arte mural urbana. E devo dizer que, pelo que constato, esta é a regra – a tendência é que inscrições ou pinturas em muros sejam logo cobertos por tinta, seja pelas prefeituras, seja pelos donos do imóvel.

Em meu blog já mencionei dois casos acontecidos em Macapá. Um deles foi o do muro na Praça Floriano Peixoto, pintado pela artista Carla Antunes, que acabou sendo o cenário do meu ensaio Todo Mundo Quer Amor, com a modelo Suelen Leão. Fizemos as fotos em outubro de 2014 e em menos de um mês o muro já havia sido descaracterizado. Outro foi de um dizer nos degraus próximos ao Trapiche Eliezer Levy , que também fotografei em 2014.

Estes dois casos evidentemente não são os únicos. Abaixo posto uma foto feita em 17 de abril de 2015, com uma inscrição pintada em um muro próximo à orla do rio Amazonas no bairro Santa Inês, em Macapá. Ela também hoje é apenas lembrança.


. Bom, me parece inegável que a ação contínua do poder público contra a arte urbana se funda num princípio burguês de que arte é uma produção feita sobre suportes transportáveis (ex: uma tela) e que só têm lugar, nas cidades, em espaços previamente designados (galerias, museus). Sob essa visão, tudo o que ousar vir a público fora dessa moldura não só mereceria proteção estatal (afinal, não é “arte”!) como ainda poderia (e vem sendo) simplesmente eliminada sem dó nem piedade – e no mais das vezes, sem o alarde de Dória, o que acaba resultando em pouca ou mesmo nenhuma manifestação contra essa ação de censura estatal.

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De minha parte, devo dizer que considero inscrições e pinturas murais Arte, sim (se ainda não ficou claro…), e como fotógrafo procuro registrar sempre que isto me é possível, tanto na cidade onde moro, quanto naquelas que percorro em viagens. Entendo que, de alguma forma, os muros da cidade acabam sendo importantes espaços de manifestação do pensamento dos cidadãos, uma espécie de rede social a céu aberto. E, não sejamos ingênuos, é óbvio que o poder público também tem essa consciência – por isso quer muros que sejam menos Twitter e mais Snapchat!

A maioria das manifestações que tenho lido contra a cruzada de Dória é, no geral, de “leigos” em arte mural. Por isto considero interessante citar aqui trechos desse post feito pelo designer Gustavo Cortelazzi, de São Paulo, ao saber do apagamento de um mural seu na av. 23 de Maio.

ONTEM MEU PINTADO DE 7 METROS FOI APAGADO NA 23 DE MAIO 😱 E o que eu acho disso? Acho que graffiti é assim mesmo!!!! É uma arte efêmera! Boa enquanto durou e que se renova!! É triste? É chato? É sim.. (…) Acho que a prefeitura está errando em respeito a esse lance de sair apagando tudo o que ver pela frente…(…) Mas por outro lado vejo uma amiga que estava a pelo menos 3 meses na fila de um Pré-Natal e sem esperança de ser atendida até o dia do parto…ser atendida em 2 (dois) dias após a posse do tal tão mal falado e playboy prefeito! Cara, eu quero meu povo feliz, educado e com saúde….e quando isso acontece eu nem ligo de ter que refazer toda semana as minhas artes!!!! (…)

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Ah, sim, até agora não falei da foto que abre a coluna. Ela mostra uma inscrição numa parede que fotografei em outubro de 2013 em Belém e que resiste bravamente ao tempo, ainda se encontra lá no mesmo lugar – não vou nem dizer a rua que é pra não dar idéia pra ninguém apagar!

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