Como fada da floresta, Marina reaparece (em ano eleitoral), e já causa confusão

por Joaquim de Carvalho, DCM

E eis que a ex-senadora Marina Silva reapareceu. E, não por coincidência, é ano eleitoral. E ela já causou confusão.

Em entrevista a uma rádio, defendeu quatro anos sabáticos para PT, PSDB, PMDB e DEM.

“Eles precisam de uns quatro anos sabáticos, se reencontrar com as bases, reler seus programas, porque foram partidos que deram uma grande contribuição para a sociedade”, afirmou.

Um pouco adiante, disse: “Esses partidos se perderam no projeto do poder pelo poder, no projeto da eleição pela eleição, deixaram de discutir os rumos da nação”.

Marina já tem quase oito anos sabáticos, desde que deixou o Senado, e parece que não aprendeu muito — o que ela fez nestes oito anos além de disputar duas eleições?

Mais importante, porém, é saber o que ela quis dizer com anos sabáticos para os quatro maiores partidos.

Que não disputem a eleição?

Afinal, anos sabáticos são aqueles em que, por opção, uma pessoa se dedica a estudos, ou se recolhe para descanso.

A origem da palavra, hebraica, é esta: sabbath, que significa descanso.

Logo a fala da Marina foi interpretada como um desejo de que ela dispute eleições sem os grandes partidos como adversários.

Eleitores dela trataram de esclarecer: não foi isso que Marina quis dizer.

E lembraram que, na mesma entrevista, ela falou:

“A sociedade deve fazer um grande favor para eles: dar um sabático de quatro anos para que o país possa, em novas bases, dar um passo à frente”.

Ora, nesse caso, não seriam anos sabáticos: seria derrota eleitoral.

E, Marina, em vez de sugerir anos sabáticos, poderia contribuir para a derrota dos adversários, como deve ser, naturalmente, o desejo dela.

Basta derrotá-los.

Mas, para isso, terá que apresentar propostas e programas que sejam aceitos pela sociedade, que a sociedade veja neles alternativa viável.

Mais do que propostas, Marina poderia ter atitude.

E suas atitudes recentes não a favorecem.

Soltou os cabelos para abraçar Aécio Neves e estender a mão para que ele a beijasse, no segundo turno das eleições de 2014.

Batalhou, no seu partido, pelo impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, mesmo sabendo que não havia crime de responsabilidade a justificá-lo.

Agora, nesta entrevista, fala como se, nesses anos turbulentos, ela tivesse se comportado como uma espectadora:

“Não podemos deixar que prospere essa ideia de que nós seremos um país dividido, um país do ódio.”

E, logo depois, se traiu, ao pregar contra o ódio, mas atacar o PT, com “doçura”, como se estivesse falando de um bem maior, universal, a paz:

“Então, estão querendo, além de terem roubado a Petrobras, os fundos de pensão, Belo Monte, roubar aquilo que é essencial para que sejamos um país economicamente próspero, socialmente justo, politicamente democrático, ambientalmente sustentável, porque, se nós nos perdemos nesta guerra que não é nossa (é de quem?), nós vamos comprometer o que há de mais importante para se ter uma nação economicamente próspera e socialmente justa que é uma cultura de paz”.

Já se disse que Marina é o tipo passiva-agressiva, que é, basicamente, o comportamento de pessoas que não se sentem confortáveis parecendo hostis, mas que quer que todos aceitem sua decisão.

O Brasil vive hoje um dos momentos mais agudos de sua história, com o Judiciário se mostrando parcial e tomando decisões políticas, e Marina precisa mostrar de que lado está.

Não adianta sugerir anos sabáticos aos partidos que pretende enfrentar nas urnas.

A política é arte de superar conflitos e buscar consensos, ocupa o lugar da violência física, da guerra pura e simples.

Se o Brasil chegou a essa situação lamentável, Marina tem culpa. Esteve em um dos lados, o pior, o dos golpistas, mas parece querer que todos esqueçam isso.

Marina já foi militante de esquerda, ao lado de Chico Mendes, no Acre, e serviu ao governo de Lula como ministra do Meio Ambiente, mas parece, hoje, carregar rancores.

No seu partido, há quadros importantes, também egressos da militância de esquerda, mas que conservaram maior lucidez política.

Se Marina quer anos sabáticos aos adversários, como se fosse presente a eles, terá que vencê-los e, para isso, terá que apresentar mais, muito mais, do que palavras vazias.

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