Caso Mateus Ferreira já lembra Edson Luís

por Paulo Moreira Leite, Brasil 247

Internado numa UTI em Goiânia, o estudante de Ciências Sociais Mateus Ferreira da Silva, de 33 anos, luta pela vida depois que teve o crânio afundado a golpes de cassetete por um capitão da PM durante um ato público da greve geral de 28 de abril.

Em estado grave, com sinais de melhora nos últimos dias, sua recuperação é alimentada pelas esperanças que a medicina oferece em nestes casos. Assim que soube da tragédia, a mãe do estudante, Suzete Barbosa, deslocou-se para a capital de Goiás, para ficar ao lado do filho. Através  de imagens gravadas por  duas câmaras de vídeo, ambas portadas por estudantes presentes, o país inteiro pode assistir à cena de violência que levou para a UTI. Pode ver o momento em que Mateus era atingido na cabeça por golpes de cassetete — ouve-se até um clique neste momento — numa sequência tão violenta que a arma se partiu no meio. Exibidas no dia da greve, a cena seria reprisada nos telejornais, mais tarde. Mas o  amor de mãe impediu Suzete de olhar as imagens.  “Não tive coragem,” disse ela aos jornalistas.

Esta diferença fundamental — a sobrevivência da vítima, mesmo numa UTI e sem perspectivas claras de recuperação — separa o destino de Mateus de uma tragédia ocorrida em 28 de março de 1968, no restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro, quando um secundarista de 18 anos, Edson Luís Lima Souto, recebeu um tiro de fuzil de um soldado da Polícia Militar e morreu na hora. Separados  pela condição médica,   por uma distância de 49 anos de história de um Brasil que passou por transformações inegáveis em meio século,  Mateus Ferreira e Edson Luís ocupam posições análogas na luta sem fim pela democratização do país.

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Cada um em seu momento e em suas circunstâncias específicas, ambos se tornaram alvos dos perpétuos movimentos de forças  que trabalham para diminuir direitos e asfixiar liberdades.

A repressão à greve geral de 28 de abril faz parte do esforço para garantir a sobrevivência de um governo repudiado por 73% da população, que procura por todos os meios levar adiante um conjunto de medidas a maioria rejeita — em essência, fazem parte da plataforma de subordinação aos interesse do governo dos Estados Unidos que a ditadura de 64 tentou mas não conseguiu cumprir até o fim.  O tiro de fuzil que alvejou Edson Luís apontava para o AI-5, era o golpe dentro do golpe que, nove meses depois, aboliu as garantias individuais, escancarou a tortura como método de investigação numa ambiente de censura e treva. A morte do estudante não foi uma tragédia isolada, como recordo no livro “A mulher que era o general da casa”:

Na fuzilaria, sete pessoas foram feridas a bala e levadas ao hospital. Um segundo estudante, Benedito Frazão Dutra, chegou ferido ao pronto-socorro e tornou-se o segundo morto do dia.  Um porteiro que passava pela rua foi alvejado. Um comerciante que assistia ao conflito  da janela de seu escritório recebeu um tiro na boca.

Jornal de maior prestígio na época,  inclusive pela atenção que prestava a oposição e pela firmeza na denúncia os crimes da ditadura, o Correio da Manhã descreveu a cena assim: “Não agiu a Polícia Militar como força pública. Agiu como um bando de assassinos.” O Jornal do Brasil assumiu um tom parecido: “assassinato leva estudantes a greve nacional.”

Dias depois da tragédia, o ministro da Justiça Gama e Silva sustentou durante um debate na TV que a morte do estudante fora uma “armação dos comunistas”. A tese era que líderes estudantis haviam  criado um tumulto que havia obrigado a PM a intervir daquela maneira. Presente ao programa, o jornalista Washington Novaes, que assistira a cena da janela da redação da revista Visão, me contou, quatro décadas depois, que rebateu o ministro na hora. “Eu estava lá e não foi assim, ministro. Vi quando o policial atirou.” Na entrevista para o livro, Washington ainda detalhou: “Vi o momento em que um aspirante da PM se ajoelhou, fez pontaria com o fuzil e deu um tiro. Também vi o menino caindo.”

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Com o passar dos anos, a memória da tragédia de 1968  evaporou-se, junto com as garantias democráticas que sobreviviam até o AI-5, como o habeas corpus, que evitava a tortura de quem era aprisionado sem culpa formada. Nenhuma investigação séria foi aberta para apurar as responsabilidades pela morte do “menino”. O maior punido foi o próprio Washington Novaes. Diretor da revista Visão, semanário de economia que tinha uma credibilidade sem paralelo, foi colocado na geladeira profissional, forçado a demitir-se e levado a mudar de foco na carreira, abandonando o jornalismo político pelos documentários voltados para a ecologia e a cultura indígena. Ele ainda foi enquadrado em dois IPMs que, sem uma acusação específica, procuravam questionar sua credibilidade e apagar a memória de um episódio que se tornou um dos marcos permanentes da violência da ditadura. Nos interrogatórios, “não queriam saber o que eu tinha visto. Só queriam que eu mudasse o que dissera. Tentavam me confundir, descobrir contradições.”

O esforço para apagar a memória das imagens violentas de 28 de abril já começou — com ajuda de uma mídia que jamais exibiu a mesma indignação de meio século atrás. Nos primeiros momentos, a pauta era tentar enquadrar Mateus no papel de “vândalo-baderneiro”, caminho mais fácil para transformar a vítima em culpado.

Havia uma dificuldade técnica intransponível, porém. Com a nitidez que a tecnologia permite, as imagens captadas em Goiânia mostram uma cena clara quando o capitão Augusto Sampaio, subcomandante do 37a Companhia Independente da PM de Goiás, avança a golpes de cassetete. Vê-se três estrelas que indicam a patente em seu ombro. Não há dúvida a respeito. A agilidade e perícia no manejo do cassetete chegam a  impressionar.

Numa reportagem do Globo de 30 de abril, o capitão Sampaio tornou-se era um oficial sem nome e sem patente. Foi descrito como  “um policial militar” envolvido no caso. Na Folha de S. Paulo de 2 de abril, o capitão aparecia com nome e sobrenome. Mas era qualificado como o “PM sob suspeita de agredir estudante em Goiás”. Errado. Pode-se até debater a responsabilidade individual do capitão no caso. Mas seu papel está documentado em vídeo. Não há suspeita. Ele foi filmado quando atingiu o estudante. Está lá, em dois vídeos, que todo mundo pode encontrar na internet.

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Negar os fatos, sabemos desde Hanna Arendt,  é a melhor forma de trabalhar para que uma democracia se transforme em ditadura. Em bom português: para que país em que Mateus Ferreira luta pela sobrevivência numa UTI, seja o mesmo Brasil em que Edson Luís foi morto e ninguém teve de responder por isso.

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