Bolsonaro e o veto da Hebraica: uma aberração não cresce sozinha

Por Fernando Brito, Tijolaço

Bolsonaro foi convidado e depois “desconvidado” para falar na Hebraica de São Paulo, noticia a Folha.

Mais chocante que o “desconvite” é o convite, partido de um endinheirado empresário, Alexandre Nigri, que entre outras ideias, acha que um dos problemas da cinema brasileiro é que somos, entre os Brics, o único povo a não possuir fenótipo definido. ” Brasileiro tem cara de japonês, de italiano, de português… não é como os demais povos dos Brics”.

Mas não sejamos injustos contra este amante da identidade brasileira, que tem uma imobiliária que preferiu batizar como MCP Realty, em lugar de um prosaico “Imóveis”, e que critica o cinema brasileiro por que, diz ele, “possui por suas lentes a visão única da miserável pobreza.”

Há gente muito maior, e também muito mais gente neste embrulho.

Os promotores de Bolsonaro são outros e muitos deles se dizem, inclusive, chocados com a brutalidade do nosso caricato “Rambo” da extrema direita.

Bolsonaro é filho da mídia que sempre estimulou a selvageria, primeiro nas suas periferias “popularescas” e, de alguns anos para cá, nos espaços mais nobres de sua orientação política.

A mídia, voz das classes dominantes e elites negociais  brasileiras, não transferiu para a política, com seus jabores, mervais, noblats e outros, o mesmo discurso intolerantes, criminalizantes, excludentes, moralistas  que, no noticiário policial, cabiam aos Datena, aos Ratinho, aos Wagner Montes?

Bolsonaro existe politicamente há 25 anos e não ia além de representar famílias de militares, por defender causas corporativas e de viúvos e viúvas da ditadura,  um deputado de 100 mil votos. Por que passou a quase meio milhão em 2014, sem ser nenhuma “novidade”?

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Do bruto nasce o bruto e a brutalidade é o estrume onde tipos assim acabam por vicejar.

Adubaram Bolsonaro, agora com a ajuda da internet, que tirou o pudor dos odiadores, dos autoritários,  dos violentos. Que, como se sabe, só alcançam em turba o ápice de seus desejos selvagens.

Como disse Leandro Karnal em uma palestra recente : classificar Bolsonaro como fascista é entrar na bipolaridade que marca o debate.

-Se Bolsonaro for fascista, protofascista, criptofascista, nada muda o fato de que quase meio milhão de fluminenses deram seu voto a ele, e não deram o seu voto porque ele escondeu suas opiniões, mas  porque , exatamente, ele disse com clareza essa opinião.

Aquela, que num estalo, diz que os problemas de uma sociedade vão ser resolvidos com moral, decência, cadeia, penas ou, mais rapidamente, tiros.

Também lhe demos nossa “mãozinha” a este processo de brutalização.

Afinal, não nos tornamos, nós próprios, em parte da esquerda, arautos do certo e do errado, fiscais de turbantes e de marchinhas? Não aceitamos, como método,  o tal “escracho” parido pelos sujeitos de baixa extração do sensacionalismo policial?

Se alguma lição ficou do que nos faltou nos 13 anos de governo progressista não é o fato de que este governo falhou em muita coisa e em tantas outras foi ingênuo. É, sobretudo, a de não ter entendido que, para se contrapor ao sistema do colonialismo-atraso- exclusão que nos é secularmente imposto é preciso política, articulação e, sobretudo, transformar a tolerância num bem social.

Aquele que nos permite conviver como sociedade e que – mais lentamente, por vezes, do que é justo e é nosso desejo –  possa mudar as referências que não deixam imensos contingentes serem cooptados pelo obscurantismo.

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