Algumas notas sobre o neoliberalismo progressista

A equação não é simples, mas essa é a grande tarefa da luta democrática: promover uma nova aliança entre as questões identitárias e de classe

.“A questão é não dissolver ‘política de identidades’ numa ‘política de classes’. É identificar claramente as raízes comuns de classes e injustiças estruturais (status injustices no original) no capitalismo financeirizado, para construir alianças entre aqueles que precisam se juntar para lutar”, escreveu ela num novo artigo, numa réplica à crítica de Johanna Brenner ao texto original, também publicado pela revista digital Dissent.

Lembro bem que, por volta de 2001, preparando-me para uma entrevista com Iztván Meszáros para o falecido Roda Viva, deparei-me com uma excelente definição do neoliberalismo (não sei mais em que página está, o livro que estava sendo lançado, Para além do capital (Boitempo) tem mais de 800 páginas e nunca mais consegui localizá-la…). Para Meszáros, o neoliberalismo se dizia um redutor do Estado, mas, na verdade, era um redirecionador. Paralelamente à política de estado mínimo no bem-estar social, na saúde e na educação, havia um crescimento em setores do Estado que ampliavam o poder das grandes corporações, reforçando a arrecadação de impostos para o pagamento de juros, o controle fiscal e o controle sobre os cidadãos.

Aqui, vou um pouco além do que li, acho. Essa contradição neoliberal construía um Estado mais poderoso para intervir na economia, paradoxalmente, pois, se criava regras de livre circulação de capitais e de mercadorias, também construía uma burocracia poderosa e bem informada, capaz de redirecionar os mecanismos de controle que criou. Daí, sigo eu, um pouco mais, o pânico anticomunista de um mundo sem comunistas: pois, de algum modo, os meios de reconstruir o Estado social e, eventualmente, uma economia planificada a partir de um respaldo eleitoral, e não a partir das grandes empresas apenas, se faziam cada vez mais presentes, com ensaios significativos na Venezuela, na Bolívia, no Brasil, Argentina, Uruguai etc. Para não falarmos da China, que nunca permitiu que as corporações ditassem sozinhas o crescimento econômico do país.

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Essa polêmica aberta por Fraser ainda vai longe, mas ele estará no coração do movimento social daqui pra frente: como aproveitar as forças criadas pelo “neoliberalismo progressista” num momento de acirramento das questões de classes, como não permitir que os discursos identitários (feminismo, movimento negro, movimento LGBT etc.) sejam esquecidos pelo discurso de classe e, ao mesmo tempo, como não permitir que os discursos identitários bloqueiem uma nova aliança de classes.

A derrota de Hillary Clinton para Trump mostrou os limites dessa política de “coabitação” entre as lutas identitárias e o capitalismo financeiro. Há outras forças em jogo, que colocam as primeiras em xeque, mas não abalam o segundo. O capitalismo financeiro pode se moldar às novas conformações do mundo, já a política identitária precisa de aliados mais fortes e sinceros, e eles estão na política de classes.

A equação não é simples, mas essa é a grande tarefa a da luta pela democracia no momento.

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