Acordamos no paraíso

Por Fernando Brito, Tijolaço

15 de março de 2017.

O Brasil revirou as entranhas do seu sistema político e, agora, somos um país de hábitos e práticas mais puros do que os de uma sociedade de querubins.

Nosso sistema político está purgado de todos os pecados, graças à ação de alguns rapazes bem trajados e mais bem pagos ainda e pela abrupta conversão de bilionários que, afinal, praticaram seu primeiro ato honesto nas vidas, ansiosos para voltar às suas mansões, cobertura, a seus porsches e BMWs, a seus caribes e europas.

Agora, impera a moralidade, aquela que nos dá o sacramento da recessão, a benção do atraso, as delícias da febre amarela que retorna, o desmanche do pensamento humanista no ensino, a libertação do desemprego crescente e o futuro radiante de, de volta ao trabalho, jornadas santificantes de 10 horas, 12, e a benção de trabalhar até a morte para que, afinal, mereçamos o descanso da paz eterna.

Não, não seremos impiedosos com os que pecaram como os outros, desde que não tenham sido hereges ao ponto de negar nossa vocação de colônia, ou de não reconhecer nossa natural inferioridade. Todos os outros que participaram da bandalheira da política, afinal, jamais negaram a fé que o mercado nos libertará.

Podem e devem continuar no comando do país, como pôde Eduardo Cunha permanecer na presidência da Câmara enquanto cumpria os desígnios deste estranho deus.

Que completem a obra, que entreguem o petróleo, que nos reduzam à escravidão sem Lei do Sexagenário sequer, que terminem de abolir o demoníaco livro da CLT. aquele que nos condena ao atraso dos direitos do trabalho e saneiem, finalmente, os sorvedouros da saúde e da educação, que nos privam do supremo progresso de sermos um pagador saudável, que mata a família de fome mas paga regularmente ao agiota.

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Alcançamos a pureza. Nos sobraram, felizmente, pró-homens como Jair Bolsonaro e Paulo Maluf (dizem que tem um sucedâneo, que varre e não faz), Maluf que se orgulha de dizer hoje, na Folha, que ‘Não só estou fora da lista de Janot, como também não estou no mensalão’.

Outros haverá, porque não se diga que a Inquisição não é generosa.

Aos hereges, permitirá a alegria de ver alguns pequenos nobres queimados também. E alguns dos grandes, também, desde que já obsoletos e desacreditados.

O importante é que, afinal, estamos nas mais santas mãos: polícia, promotores, juízes. Seus impolutos polegares, afinal, definirão quem vive e quem arderá no fogo.

Agora vamos fruir do paraíso da moralidade, como já outro tivemos, o do socialismo de Fernando Collor, que nos deixou a todos iguais, nos 50 cruzeiros que era o máximo que alguém podia ter no banco.

Ainda há um passo a dar, porque ainda existe memória e voto para as almas que se arrastam na pobreza e para os espíritos que não se deixam tomar pelo fanatismo.

Nada que depois do vazamento seletivo, do processo veloz  ou lento, sob os tambores da mídia e os nossos novos homens de preto não possam resolver com o seu index candidatorum prohibitorium não possam se achar capazes de resolver.

As portas da Nova Ordem, porém, estão abertas.

Sieg heil!

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