A tragédia da italiana que teve a vida destruída por vídeos virais de sexo

Tiziana Cantone se enforcou em casa, depois de passar um ano lutando na Justiça italiana pelo direito ao esquecimento

Provavelmente não demorou mais do que alguns segundos para a italiana Tiziana Cantone, de 31 anos, tomar a decisão que a levaria ao suicídio.

Da BBC Brasil

Em abril de 2015, ela enviou pelo WhatsApp uma série de vídeos íntimos para cinco pessoas, entre elas o namorado, Sergio Di Palo, com quem tinha um relacionamento tumultuado. Nas imagens, Tiziana tinha relações sexuais com diferentes parceiros.

“Ela era linda, mas frágil”, diz Teresa Petrosino, sua amiga durante 15 anos. “Estava com as pessoas erradas na hora errada.”

Os vídeos foram rapidamente compartilhados e publicados em páginas de conteúdo adulto. E o desempenho sexual de Tiziana não foi o que viralizou e virou meme na internet, mas sim as únicas frases que ela dizia durante a filmagem.

“Você está fazendo um vídeo?”, perguntava para o homem que segurava a câmera. “Bravo!”

Tais palavras sugeriam uma mulher desinibida, que gostava de ser filmada durante o sexo. Por acaso, também pareciam dar permissão para que as pessoas vissem o vídeo sem restrições: se ela estava tão feliz em ser filmada, não se importaria de ser vista.

Memes, sátiras e camisetas

Mas os italianos fizeram mais do que assistir ao vídeo: transformaram as palavras de Tiziana em meme. Fotos dela com as frases inundaram páginas de humor na internet e estamparam camisetas.

Ninguém se preocupou em saber o que ela poderia estar sentindo, afinal Tiziana parecia bastante satisfeita nas imagens.

O suicídio de Tiziana, em setembro do ano passado, chocou a Itália e teve grande cobertura dos meios de comunicação

“As pessoas confundem ser desinibido com querer se tornar viral”, diz a apresentadora e comentarista de TV Selvaggia Lucarelli.

“Você pode fazer um vídeo, compartilhar com algumas pessoas, mas há um acordo implícito de que ele não vai ser passado mais adiante”, acrescenta.

Mundo virtual x mundo real

Tiziana Cantone ficou horrorizada.

“Nunca falamos sobre os detalhes dos vídeos”, diz a amiga Teresa. “Nunca os vi e nunca quis vê-los. Dava para ver que ela estava sofrendo muito. Mas ela era forte.”

A jovem decidiu reagir. Mas não havia uma forma rápida de tirar os vídeos de circulação.

Ela levou o caso à Justiça, argumentando que as filmagens foram colocadas em sites públicos sem o seu consentimento.

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Neste momento, já não conseguia levar uma vida normal.

“Ela não queria sair de casa porque podia ser reconhecida. Ela descobriu que o mundo virtual e o mundo real eram a mesma coisa”, explica Teresa.

“Em algum momento, entendeu que o caso nunca seria resolvido; que seu futuro marido, seus futuros filhos, poderiam achar os vídeos, que eles nunca iriam desaparecer.”

Maria Tereza (esq.), mãe de Tiziana, exige justiça: “É como se fosse premeditado, um plano criminoso. Só queriam mostrar aquela pobre menina, com a intenção de expô-la na internet”

Tiziana Cantone deixou o emprego e voltou a morar com a família em uma rua tranquila de Mugnano, subúrbio de população trabalhadora nos arredores de Nápoles.

Briga na Justiça

Após a morte, demorou semanas para que a mãe, Maria Teresa Giglio, encontrasse forças para falar com os jornalistas.

“Minha filha era boa, mas também era vulnerável”, disse à BBC.

“Desde que nasceu, ela sofria com a falta de uma figura paterna. Ela nunca conheceu o pai e isso afetou toda a sua vida”, continuou.

Mãe e filha moravam juntas. Nos tempos felizes, Tiziana ouvia músicas italianas, lia romances e tocava piano. Mas depois que os vídeos íntimos caíram na internet, desistiu de tudo.

“Sua vida foi arruinada diante de todo mundo”, diz a mãe. “As pessoas riam dela, faziam paródias em sites de pornografia. Ela era chamada de nomes infames.”

Em setembro do ano passado, um tribunal de Nápoles determinou que os vídeos íntimos fossem retirados de sites e dos mecanismos de busca na internet.

Mas a corte também exigiu que ela pagasse 20 mil euros (R$ 66,4 mil) de custas legais.

Tiziana era uma mulher bonita, mas vulnerável, de acordo com a própria mãe

No dia 13 de setembro de 2016, Maria Teresa Giglio saiu para trabalhar na prefeitura e deixou a filha em casa.

Mais tarde, recebeu um telefonema.

‘Minha vida acabou’

“Minha cunhada me ligou e, muito calma, me pediu para ir para casa. Quando cheguei, vi a polícia, a ambulância e rapidamente entendi tudo”, diz, chorando.

“Minha cunhada tentou salvá-la. Meus vizinhos não me deixaram sair do carro. Quase desmaiei. Não me deixaram entrar aqui em casa. Não pude nem vê-la pela última vez”, continua.

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“No dia em que ela morreu, minha vida acabou.”

A mãe de Tiziana agora luta para que a morte da filha possa ajudar a salvar outras mulheres

Maria Teresa enterrou a filha em um caixão branco. O aviso, na entrada do funeral a descrevia como “um doce, lindo e frágil anjo”.

Há um triste paradoxo neste caso. Ao cometer suicídio, Tiziana Cantone chamou ainda mais atenção para os vídeos que queria ver esquecidos.

A mãe foi forçada a ver as gravações.

“Você fica imaginando como é. Eu quis ver os detalhes para poder entender a verdade. Aquela não era a minha Tiziana”, disse, convencida de que a filha estava sob o efeito de drogas.

Ela acredita que a distribuição dos vídeos na internet não aconteceu por acaso.

“É como se fosse premeditado, um plano criminoso. Só queriam mostrar aquela pobre menina, com a intenção de expô-la na internet”, continua.

Maria Teresa quer que o ex-namorado da filha, Sergio Di Palo, explique exatamente qual o seu papel no compartilhamento dos vídeos.

“Não vai me ajudar a salvar a vida dela. Mas talvez me ajude a chegar à verdade. Estou desesperada.”

Interrogatório

Em novembro de 2016, Di Palo foi interrogado pelos promotores durante dez horas. Eles queriam saber se alguém teria contribuído para o suicídio de Tiziana.

Di Palo rejeitou os pedidos de entrevista da BBC.

“Nos abstemos de fazer comentários, em respeito à pobre Tiziana que sofreu tanto com a imensa publicidade que seu caso recebeu”, disse Bruno Larosa, advogado do ex-namorado.

“Acreditamos na Justiça e devemos lembrar que nosso cliente não é acusado de nada.”

Depois do suicídio de Tiziana Cantone, o tom do debate em torno da pornografia e da privacidade mudou na Itália.

“Acho que este caso marca uma diferença, quase drástica, na maneira como a imprensa italiana trata casos de revenge porn” (pornô de vingança, em inglês), afirma a comentarista Selvaggia Lucarelli.

“O jornalistas costumavam ter uma abordagem muito despreocupada, e a morte dela mudou isso. Em casos seguintes, um deles envolvendo uma celebridade, eles foram muito mais cuidadosos”, acrescenta.

Mas também é uma lição para qualquer pessoa que compartilha vídeos íntimos nas redes sociais.

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O legado de Tiziana

“As pessoas acham que a vida social e a vida real são realidades paralelas,” adverte Lucarelli. “Não são. Elas são coincidentes. A rede é a nossa vida. Por isso, tudo o que você não faz na vida real não deve ser feito online.”

Os vídeos de Tiziana não podem mais ser localizados pelos principais mecanismos de busca da internet, mas ainda existem.

A mãe dela quer que a Itália e todos os países da União Europeia aprovem um dispositivo ágil para a retirada rápida de material privado da rede e que faça as gigantes da internet agirem com responsabilidade.

“Falo em nome de outras mães que podem estar sofrendo como eu”, disse.

O político Antonello Soro, que é presidente da autoridade independente italiana responsável pela proteção de informações pessoais, concorda que deve haver mudanças, mas não especificou o que o governo italiano pode fazer.

“Precisamos de um mecanismo de resposta rápido para diferentes plataformas online, mas é também necessário aumentar o respeito online”, afirmou Soro em um comunicado.

“Precisamos investir fortemente na educação digital para promover uma cultura e sensibilidade adequadas ao novo mundo online.”

Para a mãe de Tiziana, a vida agora se resume a lutar para defender o nome da filha e evitar que outras mulheres tenham o mesmo destino.

“Espero que o nome Tiziana Cantone, em vez de representar deboche, possa salvar a vida de outras mulheres. Quero que isso aconteça. Quero que ela salve outras pessoas”, afirma Maria Teresa.

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