Não aposentem suas panelas, por favor!

Por Thaís Moya, Jornalistas Livres

Acordei indignada. Sensação que me trouxe esperança novamente, pois achei que o caos que se tornou o Brasil pós-impeachment tinha matado minha capacidade de indignação por asfixia.

Não! Eu estou profundamente preocupada e irritada com o “salve-se quem puder” que nosso país se tornou. Condição iniciada e estimulada pelos “lava-jatistas” que assaltaram o poder por meio de um processo de impeachment absolutamente inconstitucional e fomentado por um ódio coletivo a um único partido – que de santo não tem nada – porém, disfarçado de “combate à corrupção”.

– “Primeiro, a gente tira a Dilma! Depois, a gente tira todos os corruptos”, berravam.

Pois bem, arrancaram uma presidenta legítima e democraticamente eleita, sem nenhum crime de responsabilidade e colocaram um “vice” – que está inelegível pela lei Ficha Limpa – que, por sua vez, nomeou para os ministérios um bando de “lava-jatistas” corruptos e engajados em salvar o próprio rabo. Tanto é que Temer já amargou a “queda” de mais de meia dúzia de seus ministros, todos envolvidos em escândalos, um pior que o outro.

Embora muitos poderosos desejem que a população seja uma massa de manobra apática e estúpida, ela não é. (Ao menos, não sempre.) As pessoas estão assistindo, no camarote de seus smartphones, que as regras fundamentais que deveriam sustentar nossa sociedade não valem mais nada. Basta ter empáfia suficiente para fazer o que quiser e tirar proveito para si. Ok, não sejamos ingênuas de acreditar que isso não acontecia antes. Infelizmente, sempre fez parte da cultura brasileira e do hábito daqueles que podem comprar a “justiça”. No entanto, existia o temor geral de que, se pego em flagrante, teria que responder e ser punido de algum modo, mesmo que “apenas” simbolicamente, com a própria reputação falida.

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O fato é que, pós-impeachment, nem sequer precisa-se esconder o delito. A exceção virou a regra. E por que não dizer que, para muitos, virou moda.

Ora, se o Renan Calheiros pode ignorar uma ordem do STF e não ser punido;

Se um áudio de Romero Jucá, no qual ele admite que o impeachment foi, na verdade, um grande pacto para salvar os “lava-jatistas” e nada aconteceu;

Se o juiz Sergio Moro autoriza vazamento de uma gravação totalmente ilegal da Presidência da República, mas coloca em sigilo listas com nomes de lideranças partidárias envolvidas no esquema de propinas da Odebrecht (que, curiosamente, não mencionam Dilma e nem Lula, mas implicam, por exemplo, Aécio, Alckmin, Serra & Cia, e tudo fica por isso mesmo, pior, o tal Moro continua sendo tratado como herói pela grande mídia… Por que haveríamos de nos preocupar com as consequências da lei em nosso cotidiano?

Quando se misturam a impunidade escancarada e o ódio coletivo, explode uma sociedade violenta, sem empatia e preocupação com o bem comum. Ou seja, um campo de guerra. Não à toa, estamos testemunhando tragédias nas ruas de Espírito Santo e Rio de Janeiro; nos presídios de Rio Grande do Norte, Roraima e Amazonas; perseguições e assassinatos com motivação de aversão ao que é entendido como fora do “padrão aceitável”; declarações de ódio, racismo, misoginia, lgbtfobia, xenofobia nas redes sociais e reuniões familiares… Essa lista poderia se estender quase que infinitamente, mas acredito que foi suficiente para entender com o que estamos lidando.

Comecei dizendo que estou indignada. E minha indignação não se restringe ao que nosso país tem se tornado depois do impeachment. Também não me conformo que a população que bateu panela e saiu às ruas gritando “Fora PT”, esteja inerte perante tudo que tem acontecido. Muitos estão dizendo que desistiram, pois é uma luta perdida, que não há esperança…

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Cadê a panela 2?

Como assim? Então, acenderam o incêndio que está devastando nossa democracia, nossas instituições e direitos básicos duramente conquistados; e, simplesmente, vão desistir? Irão, sem qualquer escrúpulo, se refugiar em seus condomínios fechados, em suas escolas e previdências privadas? Era mesmo apenas um ódio irracional contra Lula e o partido que ele ajudou a criar? Foi uma manha infantil para extravasar desgostos desconexos, muitos deles inventados pela Rede Globo e afins?

Ninguém pode negar que operação Lava-Jato tem sido essencial para lançar luz à podridão estrutural em nosso sistema político. Porém, é necessário admitir que ela tem alguns problemas sérios, como a parcialidade descarada de seu manda-chuva, o juiz Sergio Moro. Sua última cartada foi defender Temer das acusações feitas por Eduardo Cunha, as quais afirmam que o grande chefe do esquema de vantagens e propinas da Petrobras é o atual presidente. Tese que destrói o mantra difundido – e retratado por meio de um powerpoint ridículo – de que tal posição pertence a Lula, por mais que não existam provas mas sobre convicção.

A questão fundamental não é inocentar ou culpar o PT, pode ficar tranquila. Não se trata disso e nunca, de fato, se tratou. O que está em jogo é a conservação do velho jeito de se fazer política. Os “lava-jatistas” estão se digladiando para, primeiro, se safarem da punição que merecem e, segundo, para manter os esquemas escusos que os tornaram milionários e cada vez mais poderosos à custa do dinheiro público que deveria ser investido no bem comum dos brasileiros.

Eu realmente acredito que a maioria das pessoas, que são chamadas de “coxinhas”, fez o que fez com boa intenção. Elas acreditaram que estavam lutando por um país melhor. Quem pode dizer que nunca se enganou? Quem nunca foi manipulado? Acontece.

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Entretanto, há um abismo entre ter agido de modo sinceramente enganado e fingir que nada aconteceu. Não é possível que o ímpeto que fez tais pessoas se vestirem com a bandeira nacional e saírem pelas ruas tenha desaparecido por completo. Em algum lugar de suas consciências e dignidade deve haver um resquício dele. Não desistam, por favor.

Libertem-se das rédeas manipuladoras de movimentos como Movimento Brasil Livre (MBL), Vem Pra Rua e Movimento Contra Corrupção (MCC); e assumam a responsabilidade do que começaram. Não deixem para seus netos o legado de que bradaram “Primeiro, a gente tira a Dilma!” e sussurraram “Depois… a gente abandonou a causa, deixando o Brasil despencar no abismo da nossa incoerência, hipocrisia e covardia.”

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